domingo, 20 de junho de 2010

O andarilho em minhas andanças



O andarilho da esperança sempre me despertou muita curiosidade; o tive desde a infância como um ícone, ao lado de Dom Éuder Câmara, pelas histórias acera de suas ações, e pela respeitabilidade com que minha família e meus amigos referiam-se a ele.

Durante minha caminhada, a educação jamais saiu de pauta. Enquanto estive na escola e no “Centro Educacional”, que pertencia às Salesianas, sempre fui envolvido por ensinamentos políticos que nos ajudavam a sentir a importância de ler o mundo.

Já em minha adolescência ingressei em outro projeto que pertencia à Fundação São Martinho, onde as Salesianas e os Carmelitas desenvolviam uma ação de encaminhamento de adolescentes para a aprendizagem direta no mercado de trabalho. Ao concluir essa experiência, já com meus 18 anos, optei por ser voluntário com eles em ações junto a adolescentes com trajetória de rua e de comunidades carentes no que tange a evangelização; foi nesse momento que me senti provocado a dedicar-me integralmente ao serviço da evangelização e educação da juventude.

Quando tomei a atitude de ser Salesiano, comecei a estudar filosofia, e que sempre fora minha paixão; mas até o momento, o que teria isso tudo a ver com Paulo Freire? Se essa pergunta me fosse feita antes do seminário não saberia responder; hoje percebo muito bem o quanto tudo isso converge para a pessoa que sou, para as ações em que me encontro inserido e as atitudes que costumo tomar.

As pessoas que estiveram envolvidas em minha educação sempre me mostraram Paulo Freire, mas nunca me falaram sobre ele; deixaram que eu fizesse a minha experiência com o andarilho.
Quando criança eu, filho de família pobre, negra e solidária que partilhava o que tinha e o que não tinha, aprendi na condição de oprimido a não oprimir, mas de entender as situações que me levaram a tal condição. Com minha mãe aprendi a lutar por uma inclusão e por uma condição mais digna para os meus, sem com isso oprimir outrem.

Por começar a trabalhar muito jovem fui aprendendo a importância da autonomia, e com ela fui construindo minha vida, não sozinho, mas com os que em mim acreditavam; lutei, sofri, cai; mas aprendi a ser forte, a não permitir injustiças e a sonhar. Nesse momento fui visto como um bobo; pois um jovem que acredita em utopias, nos dias correntes, não é considerado muito ‘normal’. Mesmo assim continuei; e mais uma vez muitos foram os que me apresentaram Paulo Freire com as suas experiências. Senti que não há mesmo dinheiro que pague a dedicação de um pedagogo, no seu sentido epistemológico, em sua ação junto aos educandos que acompanha.

Em minhas ações pastorais, já como salesiano, busquei oferecer uma análise critica do contexto em que meus destinatários viviam; sendo assim, nas Casas de Atendimento a Adolescentes com Medidas Sócio-educativas, no Centro salesiano do Adolescente Trabalhador (CESAM) e no Pré-UPSET, aprofundava leituras de situações políticas do país e das conseqüências disso para a vida deles. Os motivos que os levavam à dificuldade de emprego, o que os colocava na exclusão e porque tinham dificuldade de acesso à universidade pública; sentia que essa era a minha missão fundamental, e assim fiz.

No começo desse semestre (segundo de 2006) resolvo matar a curiosidade de conhecer “um tal de” Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997). É nesse momento que começa a descortinar-se à minha frente tudo o que havia recebido enquanto educação e toda a influência que esse andarilho havia tido em minha vida. Paulo sempre esteve comigo e eu não sabia; descobri mais que seqüelas de suas idéias em minha vida, descobri que com ele havia me configurado tanto no campo da ação política, como no campo da fé e da práxis.

Encontrei nele alguém com quem possa comungar minhas utopias, meus sonhos. Consegui ver em seus escritos uma verdadeira compaixão pela educação, fator raro no campo intelectual acadêmico no qual estou inserido. Vi nele uma filosofia da práxis, que jamais havia imaginado. Ouso colocá-lo como um filósofo que conseguiu superar Karl Marx, por ter fé. Uma fé que jamais Marx teria assimilado, mas que se a conhecesse torná-lo-ia um dos mais piedosos cristãos.

Quando me encontro hoje com os textos de Paulo vislumbro as condições de possibilidade para um mundo melhor. Vejo ainda o quanto a teologia da libertação e suas reflexões contribuíram para essa constituição, e ai relembro que minha Comunidade Eclesial é de Base e, como tal, influenciou muito minha fé e minha condição de sequela cristi.

É, sem dúvida, na fé que encontro forças para continuar sonhando com um mundo (Reino) melhor; mas foi em Paulo Freire que vislumbrei possibilidades de promover esse mundo, por meio de uma educação mais crítica e política, afinal, somos seres políticos que precisam disso para constituir, seja sociedade ou comunidade.

Mas e depois da conclusão do curso? Bom, agora que ‘a Bahia já me deu régua e compasso’ tenho condições de buscar saborear a arte de educar e de, ao educar, educar-me.

Como o andarilho nos ensina aí vai uma partilha mais recente de minha vida. Fui fazer laboratório desse curso em grupo de Educação de Jovens e Adultos, lá me deslumbrei com toda a forma de educar própria da ação do andarilho; mas o que mais me chamou a atenção foi a educadora; Analina o nome dela. Educava com o coração, acreditando na importância de sua ação para a vida daqueles educandos, e com eles adquirindo experiências para sua própria vida. Ative-me a ela porque Analina foi minha educanda no Pré-UPSET, onde eu trabalhava com uma matéria chamada Cidadania. Consegui ver em suas ações o quanto ela havia assimilado nas aulas que com ela partilhei.

Em fim não me contive de emoção, pois voltei a aprender com aquela que outrora fora minha educanda. Ali, já conhecedor do andarilho, vi Paulo Freire me ensinando; ao mesmo tempo em que me comovi de orgulho e esperança; sim, muita esperança em um futuro melhor por meio da educação.

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