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domingo, 20 de junho de 2010

A GUINADA MODERNA

Durante muito tempo a verdade habitou na atividade noética (nous = alma) condicionado em um paradigma do ser. A cultura medieval, por sua vez, teve seu ponto unificador em torno de sua teologia. Com a ascensão do cogito cartesiano - um sujeito não mais empírico, agora estruturado na racionalidade - a modernidade passa para um novo paradigma, o da consciência; o self - afirmação do eu - leva o sujeito para o centro das operações intelectuais com isso a verdade deixa de habitar na atividade noética e passa para o cogito - cogitare. A modernidade é um período que se caracteriza, sobretudo, pela afirmação do Self . Contudo, para manter-se legítima a seu projeto, ela teve que abandonar as grandes questões. A modernidade foi, por excelência a era da razão autônoma.

O início da modernidade trás consigo uma mudança de pensamento. A natureza passa a ser vista de forma matemática. Influenciado por Galileu, Descartes descobre que há na Natureza leis constantes e que a partir daí ela poderia ser lida como um livro. Não mais o Homem que se sujeitaria à Natureza, mais ela que prestaria reverência à razão humana, uma vez que, o homem poderia tomar todos os seus segredos. Outro nome que foi de vital importância para a mudança na forma de ver o mundo, foi Newton.

" Newton concebia o Universo em termos mecânicos. Deus é introduzido no sistema mecânico como construtor do mecanismo, nada mais do que um mero técnico que pode ser removido completamente da teoria explicativa do funcionamento das coisas."

Com isso, a sacralidade transcendente da Natureza, a que antigos (Cosmos) e medievais ( Deus) se reportavam, perde o sentido, dado o próprio estatuto do mundo ser contado nos liames de causas que se auto-justificam, por isso, eficientes. A rejeição da essência é, pois, a adoção de um novo modelo de racionalidade, que ao mesmo tempo oferece bases consensuais para o saber e limita, por outro, as fronteiras deste mesmo conhecimento. Assim, o que se revelava metafisicamente à luz de um heteros divino, passa a ser realizado pelo esforço do cogito, do self, no ato mesmo da reflexão. O sujeito que conhece torna-se o centro de todo o processo intelectual, por meio de uma racionalidade que se alto afirma.

Ao ver-se de posse do Self a modernidade assume, erroneamente segundo Blumenberg , as "grandes questões da era medieval", tentando responde-las. Ao fazer isso ela perde o seu referencial do objeto subjacente à afirmação do Self . Esse equívoco fundamenta-se na concepção teológica do medievo que agonizava. Quando Ockham atribui a Deus apenas as respostas de ordem salvífica, e aos modernos a responderem às suas próprias perguntas, a modernidade passa a ser responsável somente pelas questões intramundanas.

Com tudo isso, encontramos na racionalidade moderna três componentes que se inscrevem em momentos paradigmáticos, sendo eles: a identidade, a atividade auto-preservadora e a contradição. O primeiro é um momento estrutural que dita uma consciência auto-assertiva que se coloca como princípio subjacente de toda a racionalidade, dado a sua substancialidade; o segundo é um momento estrutural que visa somente a uma preservação-de-si-mesma, já que as coisas mantêm o seu estado - conforme o sistema mecânico auto-eficiente de Newton - e não obedecem a um fim preestabelecido; no terceiro momento estrutural que indica perfeição das coisas, dado que a mudança não é inata, mas sim esta ocorre a partir de fatores externos que se contradizem no choque entre forças opostas.

Tendo a existência como fato, a modernidade teria o desafio de responder as questões que fossem apresentadas a ela, procurando desenvolver o conhecimento a partir de uma causa sui da consciência que afirma a sua subjetividade, e ao mesmo tempo visa preservar a si mesma e encarar as contradições apresentadas . Uma nova metafísica da alma é a grande guinada moderna, cabe a ela assumir esse desafio.



Anselmo Nascimento

Interlúdio Filosófico entre Eros e Civilização


No livro “Eros e Civilização” Herbert Marcuse continua a cunhar sua crítica a cerca da falta de concretude do homem moderno. Ele é um pensador que não abandona os ideais marxistas, mas aponta caminhos novos para a promoção do mesmo. Marcuse opta por retomar alguns conceitos freudianos a partir de uma perspectiva político-sociológica.

Do pensamento de Freud, Marcuse aponta a seguinte tese: a civilização sempre será repressiva, e a felicidade inviável; isso porque o progresso da civilização traz como conseqüência o aumento do mal-estar e da destrutividade . Ele constata isso analisando os mecanismos mentais dos indivíduos, substâncias vivas da história. Marcuse, no Interlúdio Filosófico, capítulo quinto, visa elucidar as implicações metapsicológicas da teoria freudiana, que ao atingir hipóteses sobre as estruturas principais da ontologia, atingem diretamente o contexto da filosofia ocidental, mas não atingem superficialmente, como se pensava; ao contrário, suas implicações são mais que formais. É nesse interlúdio que o capitulo desenvolver-se-á.

Marcuse comunga com Adorno no que tange à história e seu progresso independente do conhecimento, mas de acordo com as próprias leis do processo histórico. É perceptível nas instituições a luta entre eros e o instinto de morte, mas são essas vicissitudes que oferecem dinamismo para a evolução. Isso porque Freud pensou uma civilização repressiva e universal, a partir do principio de desempenho, bem de acordo com o momento histórico em que estava. Marcuse vê o principio de desempenho como re-afirmador da repressão.

A fonte de tudo isso se encontra no que Freud apresenta como inibição metódica dos instintos primários. A inibição da sexualidade em vista de melhores relações grupais, e a inibição dos instintos destrutivos em vista da moralidade individual e social. Assim é possível o progresso da vida social; no entanto isso traz a sublimação da agressão controlada, onde o Eros é debilitado e a destrutividade se liberta.

No que tange ao ego, Marcuse relata como ele foi apresentado no Ocidente, principalmente no que diz respeito à natureza, que como ego agens, deveria ser combatido, conquistado e até violado. Era a relação maître possesseur, em vista da autopreservação e do autodesenvolvimento, ou seja, visando o desenvolvimento humano foi travada com a natureza uma luta eterna. Nessa relação o trabalho se apresenta como um demolidor da resistência.
Caminhando nessa lógica, o trabalho deveria visar a libertação do homem, mas isso não acontece. A razão que teria por finalidade garantir a realização das potencialidades humanas, quando unida à lógica, reduz a unidade do pensamento, conforme apresentara Hegel, à técnicas de cálculo e manipulação. É possível perceber tais acontecimentos na história da razão ao constatar que a curva ascendente do devir foi convertida em um círculo que se move em si mesmo, onde estão contidos o passado, o presente e o futuro. No auge do pensamento racional ocidental, em Hegel, esse movimento fica evidente quando a razão desenvolve-se através da evolução do conhecimento de si mesmo que o homem faz.

Essa prisão leva a um movimento infindável no que tange à liberdade do ego, já que o mundo tem um caráter de negatividade. Máximas como a de Hegel de que “A autoconsciência só pode atingir sua satisfação noutra autoconsciência”, evidencia uma barreira, que pressupõe uma suprassunção da alteridade. Fato é que a obra máxima hegeliana apresenta uma auto interpretação da civilização ocidental.

Desta forma, a filosofia ocidental foi tecida. De Aristóteles a Hegel, as formas básicas da razão e da liberdade se apresentam como “noús” (Geist). Entre os pensadores, acontece o progresso da alienação, embasado na lógica da dominação, sustando assim a libertação do oprimido.

É Nietzsche que rompe com essa tradição ontológica e denuncia o logos como repressor. Aponta como equívoco a transformação de fatos em essências, de condições históricas em metafísica. Nietzsche parte de um principio de realidade contrário ao modelo ocidental, desejando assim libertar-se do que ele chama de tirania do devir.

O logos como parte que se intercala nas diversas partes do desenvolvimento da razão ocidental, apresenta-se na forte tendência da lógica da dominação que tenta abafar a tendência de formulação de um novo logos, o da gratificação. Freud, ao definir o Eros como essência do ser, comunga com a dinâmica filosófica que se desvelava.

Marcuse parte do pressuposto de que Ser é, essencialmente, lutar pelo prazer; e é esta luta que se converte “no anseio” da existência humana. Não é possível confiar à Ananke a existência humana. Afinal, a cultura tem início exatamente, no preenchimento coletivo desse anseio e não nos interesses de dominação. A teoria freudiana se torna factível por oferecer um retorno a Platão e possibilitar conceber a cultura como livre auto-desenvolvimento de Eros.

Em linhas gerais, o que Marcuse vem mostrar é que ir além de Freud é atingir um novo modelo de civilização. Freud cria que na constante luta entre Eros e Tanatos o último sempre prevalecia. A proposta de Marcuse é que a tecnologia daria possibilidade de diminuição de tempo de trabalho e labor para haver tempo livre que seria utilizado para o lúdico. Quando se fala em tempo livre enquanto lúdico, quer-se dizer que o tempo seria utilizado para desenvolver as potencialidades do sujeito de acordo com suas verdadeiras necessidades. Marcuse se baseia no Eros para a construção da Civilização estética, e defende que o equívoco de Freud foi se fundamentar em um modelo unívoco, o da civilização ocidental. Conseqüentemente ele, assim como ela, reprimiram o ser humano.

Bibliografia
MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: uma interpretação do pensamento de Freud. 8. ed. São Paulo: LTC Editora,1998. Capítulo V. p. 104-119.