A barbárie do dia sete de fevereiro de 2007, no Rio de Janeiro, tem ocasionado mal-estar entre diversos ramos da sociedade e traz para o debate, novamente a redução da idade penal; um assunto sempre latente na opinião pública. A violência na cidade maravilhosa retrata mais do que um problema isolado, ao contrário, evidencia um estágio avançado de desenvolvimento que todo o país chegará caso não se discuta o que de fato importa para reverter este quadro o quanto antes. Merece todo o carinho da sociedade a família de João Hélio, louvor também ao pai que ousou denunciar o próprio filho, e parabéns o povo carioca que vem tentando expressar o inexprimível.
Merece atenção a palavra da professora de filosofia Viviane Mosé que pede para suspender o momento e refletir que rumo a sociedade esta tomando. Sabe-se que tudo tem um começo. Colocando como referencial para a luta pela redução da menoridade penal. O questionamento que surge é até que ponto realmente se quer atacar o problema em sua raiz, ou será que mais uma vez oferecer soluções paliativas? A cultura do jeitinho brasileiro impregnou de tal forma o cotidiano da sociedade que se acredita sempre que a melhor solução é a imediata; após algum tempo, nem se lembra mais o que reivindicava. Recordar é viver.
O caso da Candelária, que completará 14 anos em julho próximo, revoltou a população, ali já se tornara evidente o problema social que o Rio encarava e muitos foram os grupos que exigiram, não apenas a condenação dos policiais, mas também políticas que evitassem a situação em que os meninos se encontravam. O então ministro da justiça Nelson Jobim ignorou as reivindicações. Em 2003 o caso do menor, de codinome “chapinha”, que assassinou o casal de namorados que acampavam no parque, em São Paulo, incendiou novamente o debate. Esse último caso se assemelha com o de João Helio, pois acontece em um grupo de maiores e um menor presente. É triste ver como o crime ensina.
Quando a população reivindica a discussão da redução da idade penal, ela esta preocupada em pensar o que ela mesma fez com a sociedade, ou seu interesse é condenar o executor daquele bárbaro ato? A pergunta se coloca para que as soluções paliativas não imperem em situações complexas como a da violência e falta de educação nas cidades brasileiras. Dona Rosa Cristina Fernandes (mãe do João) afirma repetidas vezes “eles não têm coração”, depois corrige, “no lugar do coração eles têm uma pedra”. Talvez seja momento de pensar, o que esta petrificando o coração dos adolescentes e jovens brasileiros? Que pais, que educadores, que modelo de cidadãos estamos sendo? Quais exemplos, com que testemunhos o país tem se empenhado em mostrar que o mundo pode ser melhor? Quando digo país, falo de mim, que escrevo e de você que lê!
Querer provar que eles são ruins, como afirma o delegado carioca Hércules Pires, é mostrar que a terra é redonda; querer entender e combater o que os torna “ruins” é atitude de quem deseja mudar algo que realmente influencie o rumo de nossa história. A irmã de João Hélio dá o pontapé inicial ao questionar: “Se essa não é a hora da mudança quando será?” Resta saber que tipo de mudanças se busca; as paliativas ou as que vão à raiz do problema. O senador baiano Antônio Carlos Magalhães acredita que um jovem não pode deixar de ser punido por falta de experiência, e sugere aumentar o tempo deles nas cadeias; saída boa para quem deseja profissionais mais experientes no futuro.
É oportuno ainda recordar que a pobreza não é fator decisivo para a pratica de barbáries como a com João Hélio; basta lembra que os adolescentes que incendiaram Gaudino Jesus dos Santos, a quase 10 anos, eram de classe abastarda; que a jovem Suzane Von Richthofen tinha país ricos e era munida de uma boa educação. A banalidade do mal existe e tende a crescer, enquanto como sociedade não pararmos para pensar o que estamos fazendo e como estamos agindo na educação, no sentido lato, do futuro não teremos as mudanças sonhadas, e veremos acontecer com o Brasil o que hoje acontece no Rio.
Por isso, mais que autonomia estadual para regência de leis, faz necessária ações educativas preventivas em vista do futuro, e emergenciais em vista do presente próximo. Muitas correntes pedagógicas contemporâneas temem a palavra disciplina e a ornamentam com o termo limite, que seja, o importante é saber que o ser humano é construído de acordo com suas relações; quais relações estabelecendo com os adolescentes e jovens de hoje? Enfim, o mundo que queremos condiz com nossas atitudes?
Nenhum comentário:
Postar um comentário