
No livro “Eros e Civilização” Herbert Marcuse continua a cunhar sua crítica a cerca da falta de concretude do homem moderno. Ele é um pensador que não abandona os ideais marxistas, mas aponta caminhos novos para a promoção do mesmo. Marcuse opta por retomar alguns conceitos freudianos a partir de uma perspectiva político-sociológica.
Do pensamento de Freud, Marcuse aponta a seguinte tese: a civilização sempre será repressiva, e a felicidade inviável; isso porque o progresso da civilização traz como conseqüência o aumento do mal-estar e da destrutividade . Ele constata isso analisando os mecanismos mentais dos indivíduos, substâncias vivas da história. Marcuse, no Interlúdio Filosófico, capítulo quinto, visa elucidar as implicações metapsicológicas da teoria freudiana, que ao atingir hipóteses sobre as estruturas principais da ontologia, atingem diretamente o contexto da filosofia ocidental, mas não atingem superficialmente, como se pensava; ao contrário, suas implicações são mais que formais. É nesse interlúdio que o capitulo desenvolver-se-á.
Marcuse comunga com Adorno no que tange à história e seu progresso independente do conhecimento, mas de acordo com as próprias leis do processo histórico. É perceptível nas instituições a luta entre eros e o instinto de morte, mas são essas vicissitudes que oferecem dinamismo para a evolução. Isso porque Freud pensou uma civilização repressiva e universal, a partir do principio de desempenho, bem de acordo com o momento histórico em que estava. Marcuse vê o principio de desempenho como re-afirmador da repressão.
A fonte de tudo isso se encontra no que Freud apresenta como inibição metódica dos instintos primários. A inibição da sexualidade em vista de melhores relações grupais, e a inibição dos instintos destrutivos em vista da moralidade individual e social. Assim é possível o progresso da vida social; no entanto isso traz a sublimação da agressão controlada, onde o Eros é debilitado e a destrutividade se liberta.
No que tange ao ego, Marcuse relata como ele foi apresentado no Ocidente, principalmente no que diz respeito à natureza, que como ego agens, deveria ser combatido, conquistado e até violado. Era a relação maître possesseur, em vista da autopreservação e do autodesenvolvimento, ou seja, visando o desenvolvimento humano foi travada com a natureza uma luta eterna. Nessa relação o trabalho se apresenta como um demolidor da resistência.
Caminhando nessa lógica, o trabalho deveria visar a libertação do homem, mas isso não acontece. A razão que teria por finalidade garantir a realização das potencialidades humanas, quando unida à lógica, reduz a unidade do pensamento, conforme apresentara Hegel, à técnicas de cálculo e manipulação. É possível perceber tais acontecimentos na história da razão ao constatar que a curva ascendente do devir foi convertida em um círculo que se move em si mesmo, onde estão contidos o passado, o presente e o futuro. No auge do pensamento racional ocidental, em Hegel, esse movimento fica evidente quando a razão desenvolve-se através da evolução do conhecimento de si mesmo que o homem faz.
Essa prisão leva a um movimento infindável no que tange à liberdade do ego, já que o mundo tem um caráter de negatividade. Máximas como a de Hegel de que “A autoconsciência só pode atingir sua satisfação noutra autoconsciência”, evidencia uma barreira, que pressupõe uma suprassunção da alteridade. Fato é que a obra máxima hegeliana apresenta uma auto interpretação da civilização ocidental.
Desta forma, a filosofia ocidental foi tecida. De Aristóteles a Hegel, as formas básicas da razão e da liberdade se apresentam como “noús” (Geist). Entre os pensadores, acontece o progresso da alienação, embasado na lógica da dominação, sustando assim a libertação do oprimido.
É Nietzsche que rompe com essa tradição ontológica e denuncia o logos como repressor. Aponta como equívoco a transformação de fatos em essências, de condições históricas em metafísica. Nietzsche parte de um principio de realidade contrário ao modelo ocidental, desejando assim libertar-se do que ele chama de tirania do devir.
O logos como parte que se intercala nas diversas partes do desenvolvimento da razão ocidental, apresenta-se na forte tendência da lógica da dominação que tenta abafar a tendência de formulação de um novo logos, o da gratificação. Freud, ao definir o Eros como essência do ser, comunga com a dinâmica filosófica que se desvelava.
Marcuse parte do pressuposto de que Ser é, essencialmente, lutar pelo prazer; e é esta luta que se converte “no anseio” da existência humana. Não é possível confiar à Ananke a existência humana. Afinal, a cultura tem início exatamente, no preenchimento coletivo desse anseio e não nos interesses de dominação. A teoria freudiana se torna factível por oferecer um retorno a Platão e possibilitar conceber a cultura como livre auto-desenvolvimento de Eros.
Em linhas gerais, o que Marcuse vem mostrar é que ir além de Freud é atingir um novo modelo de civilização. Freud cria que na constante luta entre Eros e Tanatos o último sempre prevalecia. A proposta de Marcuse é que a tecnologia daria possibilidade de diminuição de tempo de trabalho e labor para haver tempo livre que seria utilizado para o lúdico. Quando se fala em tempo livre enquanto lúdico, quer-se dizer que o tempo seria utilizado para desenvolver as potencialidades do sujeito de acordo com suas verdadeiras necessidades. Marcuse se baseia no Eros para a construção da Civilização estética, e defende que o equívoco de Freud foi se fundamentar em um modelo unívoco, o da civilização ocidental. Conseqüentemente ele, assim como ela, reprimiram o ser humano.
Bibliografia
Bibliografia
MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: uma interpretação do pensamento de Freud. 8. ed. São Paulo: LTC Editora,1998. Capítulo V. p. 104-119.
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