Durante muito tempo a verdade habitou na atividade noética (nous = alma) condicionado em um paradigma do ser. A cultura medieval, por sua vez, teve seu ponto unificador em torno de sua teologia. Com a ascensão do cogito cartesiano - um sujeito não mais empírico, agora estruturado na racionalidade - a modernidade passa para um novo paradigma, o da consciência; o self - afirmação do eu - leva o sujeito para o centro das operações intelectuais com isso a verdade deixa de habitar na atividade noética e passa para o cogito - cogitare. A modernidade é um período que se caracteriza, sobretudo, pela afirmação do Self . Contudo, para manter-se legítima a seu projeto, ela teve que abandonar as grandes questões. A modernidade foi, por excelência a era da razão autônoma. O início da modernidade trás consigo uma mudança de pensamento. A natureza passa a ser vista de forma matemática. Influenciado por Galileu, Descartes descobre que há na Natureza leis constantes e que a partir daí ela poderia ser lida como um livro. Não mais o Homem que se sujeitaria à Natureza, mais ela que prestaria reverência à razão humana, uma vez que, o homem poderia tomar todos os seus segredos. Outro nome que foi de vital importância para a mudança na forma de ver o mundo, foi Newton.
" Newton concebia o Universo em termos mecânicos. Deus é introduzido no sistema mecânico como construtor do mecanismo, nada mais do que um mero técnico que pode ser removido completamente da teoria explicativa do funcionamento das coisas."
Com isso, a sacralidade transcendente da Natureza, a que antigos (Cosmos) e medievais ( Deus) se reportavam, perde o sentido, dado o próprio estatuto do mundo ser contado nos liames de causas que se auto-justificam, por isso, eficientes. A rejeição da essência é, pois, a adoção de um novo modelo de racionalidade, que ao mesmo tempo oferece bases consensuais para o saber e limita, por outro, as fronteiras deste mesmo conhecimento. Assim, o que se revelava metafisicamente à luz de um heteros divino, passa a ser realizado pelo esforço do cogito, do self, no ato mesmo da reflexão. O sujeito que conhece torna-se o centro de todo o processo intelectual, por meio de uma racionalidade que se alto afirma.
Ao ver-se de posse do Self a modernidade assume, erroneamente segundo Blumenberg , as "grandes questões da era medieval", tentando responde-las. Ao fazer isso ela perde o seu referencial do objeto subjacente à afirmação do Self . Esse equívoco fundamenta-se na concepção teológica do medievo que agonizava. Quando Ockham atribui a Deus apenas as respostas de ordem salvífica, e aos modernos a responderem às suas próprias perguntas, a modernidade passa a ser responsável somente pelas questões intramundanas.
Com tudo isso, encontramos na racionalidade moderna três componentes que se inscrevem em momentos paradigmáticos, sendo eles: a identidade, a atividade auto-preservadora e a contradição. O primeiro é um momento estrutural que dita uma consciência auto-assertiva que se coloca como princípio subjacente de toda a racionalidade, dado a sua substancialidade; o segundo é um momento estrutural que visa somente a uma preservação-de-si-mesma, já que as coisas mantêm o seu estado - conforme o sistema mecânico auto-eficiente de Newton - e não obedecem a um fim preestabelecido; no terceiro momento estrutural que indica perfeição das coisas, dado que a mudança não é inata, mas sim esta ocorre a partir de fatores externos que se contradizem no choque entre forças opostas.
Tendo a existência como fato, a modernidade teria o desafio de responder as questões que fossem apresentadas a ela, procurando desenvolver o conhecimento a partir de uma causa sui da consciência que afirma a sua subjetividade, e ao mesmo tempo visa preservar a si mesma e encarar as contradições apresentadas . Uma nova metafísica da alma é a grande guinada moderna, cabe a ela assumir esse desafio.
Anselmo Nascimento
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